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‘Um cérebro doente limita mais a vida do que o câncer’, alerta neurocientista
21
Abr
Celebridade em sua Argentina natal, Facundo Manes evita condenar as tecnologias: para ele, quem sofre mais com as redes sociais tem predisposição para a ansiedade




RIO - Quando se fala em neurociências na Argentina e outros países da região um dos primeiros nomes que vem à cabeça (opa!) é o de Facundo Manes. Espécie de mestre do cérebro em sua terra, o pesquisador nascido em Quilmes tem uma carreira que já atravessou fronteiras através da publicação de livros e de palestras (muitas delas, para multidões) para falar sobre o que ele define como “o órgão social mais complexo do universo”.

Formado em Medicina na Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) com pós-graduação em Cambridge, Manes está à frente do Instituto de Neurologia Cognitiva (INECO) e preside a Sociedade Internacional de Demências Frontotemporais. Ele estuda o cérebro com a certeza de que suas doenças são hoje o maior mal que assola a Humanidade.

— Um cérebro doente limita muito mais a vida de uma pessoa do que qualquer outra patologia, até mesmo câncer — assegurou o neurocientista em entrevista ao GLOBO, em que também dá dicas para um cérebro saudável: aprender coisas novas até o fim da vida e ter vínculos humanos positivos, entre outros.


Quais foram as principais descobertas da neurociência nos últimos anos?

Estudar o cérebro é prioridade nos países mais desenvolvidos do mundo. Uma das coisas mais importantes que se descobriu num estudo realizado na Universidade de Harvard é que somos seres sociais e precisamos estar conectados com outros seres humanos. A solidão é um fator de mortalidade importantíssimo, mais do que alcoolismo, obesidade ou poluição. Também confirmou-se que na base do cérebro temos circuitos relacionados às recompensas, ao que nos dá prazer. Quando sentimos esse prazer, ativam-se os mesmos neurotransmissores que quando consumimos drogas. Realizar atos altruístas nos dá prazer. Não podemos dizer que a sensação é exatamente a mesma, mas liberamos dopamina, que é o neurotransmissor do prazer.

“A solidão é um fator de mortalidade importantíssimo, mais do que alcoolismo, obesidade ou poluição” Facundo Manes, Neurocientista

Como definiria o cérebro?

Como um órgão social, o mais complexo do universo. Não podemos entender o cérebro de forma isolada, porque ele muda o tempo todo em base a nossas relações.


Como a neurociência ajuda as pessoas a viverem melhor?

Hoje as doenças do cérebro são as que mais limitam a vida das pessoas, e a neurociência está abrindo portas em casos de Alzheimer, depressão, Parkinson e ansiedade, entre outras. Hoje a grande maioria das consultas é por ansiedade, estresse e insônia crônicos, são coisas que alteram muito a vida. E conviver com pessoas que sofrem dessas doenças também gera estresse.


Por que, no caso de certas demências e de pacientes com Alzheimer, ocorrem alguns estalos, algumas recordações inesperadas?

O Alzheimer é a morte progressiva de neurônios que afeta a memória, algumas funções cognitivas, emoções e condutas. O primeiro desgaste ocorre com duas estruturas profundas, os hipocampos, que contêm a memória de curto prazo. A memória mais antiga é a última coisa que se perde. E alguns elementos provocam conexões, como músicas e emoções.


Como se cuida do cérebro?

Fazendo exercício físico. Trata-se de um grande ansiolítico, e reforça o pensamento criativo. A vida social é importante, temos de estar ativos mentalmente até o final, aprender coisas novas, como um instrumento. O sono protege o cérebro. E é essencial ter vínculos sociais positivos.

“A vida social é importante, temos de estar ativos mentalmente até o final, aprender coisas novas, como um instrumento”  Facundo Manes, Neurocientista

Afinal, amamos com o cérebro ou com o coração?

Hoje sabemos que o amor é um processo mental sofisticado. O amor é um estado mental subjetivo que consiste na combinação de emoções, motivações e funções cognitivas complexas. Dizer que amamos com o coração é romântico, mas a verdade é que o coração não é a origem da emoção. Na realidade, sofre com ela.


É verdade que usamos apenas 10% de nosso cérebro?

Isso é absolutamente falso. Costumo dizer que quem afirma isso é quem usa 10% de seu cérebro ( risos ).


O senhor fez uma pesquisa sobre o cérebro dos garçons e criou a chamada “técnica Tortoni” (em referência ao famoso Café Tortoni de Buenos Aires). De que se trata?

Estava no Café Tortoni com alguns amigos e começamos a nos perguntar como os garçons conseguiam lembrar de tantos pedidos sem anotar. Fizemos uma investigação para entender qual era a estratégia deles para recordar bebidas e comidas associadas às pessoas que as pediam. Fomos várias vezes ao Tortoni e a outros bares e o que fazíamos era mudar de mesa depois de realizar o pedido. O que acontecia, na maioria dos casos, era que os garçons traziam o pedido correto, mas entregavam para a pessoa errada. Entendemos que o segredo da memória dos garçons é associar o rosto da pessoa ao lugar em que estava sentada. Se uma das variáveis é modificada, os garçons muitas vezes erram. Foi um trabalho original porque saímos do laboratório.


Que filmes o senhor recomendaria a quem se interessa pelo cérebro?

O filme “Divertida Mente” é interessante e faz uma apresentação criativa de muitos conceitos da psicologia cognitiva e da neurociência. A produção simplifica algumas coisas, mas é um esforço interessante de descrever como funciona nosso cérebro. Já a série “The Big Bang Theory” ajudou a ciência a entrar em muitas casas. Isso impulsiona muito o nosso trabalho e nos dá visibilidade.


Qual é o impacto das novas tecnologias no cérebro?

Essa é uma pergunta que ainda não podemos responder. As tecnologias são recentes, e ainda é difícil saber seu impacto no longo prazo. As novas tecnologias não vão gerar, por exemplo, um novo lóbulo cerebral. Mas, sim, podemos refletir sobre algumas questões como o chamado “multitasking”, ou seja, a realização de várias tarefas ao mesmo tempo. Ele deteriora o rendimento e reduz o nível de atenção.


As redes sociais são nocivas neste sentido?

A utilização não moderada de redes sociais pode gerar ansiedade. Claro que as redes não são as culpadas. O que acontece é que pessoas que já tinham predisposição a sofrer, por exemplo, de ansiedade acentuarão seu problema. Muitos dizem que a internet enfraquece a memória, mas não é bem assim. A memória não é uma base de dados, sua principal função é relacionar dados que podem ser obtidos num computador ou num livro. Entre adultos, a utilização moderada da tecnologia é fascinante. No caso das crianças é mais delicado, porque o cérebro termina de amadurecer entre os 20 e os 25 anos. É importante é que as crianças tenham tempo para entediar-se e sonhar.


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Fonte: O Globo: Janaína Figueiredo - 20/04/2019


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